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- 154 AuTossabOtagem
- 117 Grotas Gretadas sem Gotas Caídas
- 66 Não Prometa o que Pode Acontecer!
- 65 FELICIDADE EM UMA CAMA KING SIZE
- 59 Bertolucci
- 54 O azul dos necrotérios.
- 48 Tsurus
- 27 naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
- 20 Cuidado, carneiros na pista!
- 13 Laurinha
- 12 Devolução
- 6 APARTAÇÃO
- 5 Ou Ritmo
- 4 O Chapéu
- 4 95 anos servem pra quê?
- 4 Era Ela.
- 4 Minha casa
- 4 Teresa em fuga
- 2 AMIZADE
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Machucados
Clayton C.
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Quando era adolescente tomava coragem e ficava durante a noite em lugares sem luz e abandonados. Sentia minhas orelhas vermelhas, o suor nas costas descia e me incomodava. Ficava sem respirar o máximo possível. Nada acontecia, não ouvia nada. Em casa, deitado na cama uma voz me falava algo que parecia lógico, sensato. Mas não conseguia entender. Minha angústia ficava insuportável. Isso acontecia na escola, o que me causava brigas e notas baixas e devido a isso meu pai me tirou da escola e contratou um professor particular. O professor sempre aparecia machucado ou doente. Minha memória é muito viva quanto a isso, ele aparecia com curativos no rosto, uma vez até com o olho esquerdo tapado. Um dia um braço quebrado e pouco tempo depois, uns meses, o outro braço. A aprendizagem ia bem, de alguma forma me concentrava e melhorei nos estudos, porém meu comportamento social piorou e fiquei um mês inteiro sem ver ninguém exceto meu pai e o professor.
Faltava meio ano pra terminar meus estudos e o professor repentinamente pediu demissão. Despediu-se, fiquei na escada, meu pai voltou minutos depois vermelho e afobado, — Chama a polícia!... não! Os bombeiros, ermegência!, me inclinei um pouco e o professor estava do lado de fora na beira da porta, imóvel e pálido. Meu pai ligou, mas quando a ambulância apareceu o professor já estava morto. Meu pai ficou abalado por vários meses. Terminei os estudos, com louvor, com uma professora muito habilitada. A professora tinha mais uma habilidade: fazer meu pai rir. As piadas bastante esparsadas e final astuto terminavam mesmo com meu pai rindo, muitas vezes às lágrimas. O nome dela era Inácia, levemente vesga. Meu pai também ficava vesgo vez por outra atrás dos óculos. Os dois tinham cabelo bagunçado e pareciam mais velhos do que eram. Meu pai menos, tinha 45 e aprentava cinco a mais; ela tinha 32 e pareia 40. Peguei os dois rindo um pro outro no sofá. — O refrigerante tá bom mesmo, disse ela.
Ficaram noivos. Ela nós visitava todo dia, engraçado, na mesma hora que costumava vir pra me dar aula. Um mês para o casamento ela apareceu com o braço quebrado e uma pequena gase na testa. O noivo ficou atônito, ela respondeu que foi uma queda de nada, nem doeu e a irmã insistiu o médico. Ficou surpresa, com o braço quebrado, mas nem doera. No final dessa frase ela colocou “amor”, ele até riu, esgarçado. Meu pai me arrumou um emprego num banco. Cheguei do primeiro dia do trabalho, não queria falar com ninguém, ele não me viu e estava sentado na cozinha bebendo vinho, sentei perto e só me ouviu depois de um tempo. Não me perguntou nada e só disse: — Hoje a Ná caiu da escada e quebrou o outro braço! Mas ela estava inabalável e quis casar mesmo assim, “ sua Ná vai ficar bem graciosa, você vai ver!” Meu pai não acretidou e me confessou o seu temor, me pediu que não contasse mais nada sobre o professor, dos machucados. Confirmei que não iria e ele me pediu que repetisse. Ele a hospedou em casa, num quartinho no andar debaixo e cuidou dela. No meu diário meu pai era o “muletas”. E o muletas era todo automatizado, se movimentava bem, não escorregava, e agora dera pra beber. Dizia “ cuidado!” várias vezes à sua noiva. Inácia, por causa dos gessos nos braços, parecia que queria abraçar todo mundo e dera pra se chamar “imbecil”, (ou já era sua mania?) e ria quando fazia alguma imbecilidade.
Faltando um dia pro casamento ela entrou no meu quarto de roupão, o tirou com manobras. Não fiquei constrangido por que um corte enorme nas costas deixava o sangue escorrer. Começou a falar rápido e só entendi a parte final: — Daí você ter que me costurar, quer dizer, suturar.”, ela sabia da desconfiança do noivo e com ele bebendo vinho daquele jeito. Se fosse ao médico ele perceberia, “me ajude”” e ficou esperando minha resposta. A agulha era em forma de meia lua, a linha, de náilon, estava dentro de um pote com alcool (vinho?). Ela parecia não sentir dor, terminei a sutura e fui imediatamente tomar um banho frio e não a ajudei a se vestir, manobra que ela não dominava, ainda mais ferida.
O dia do casamento chegou. Estava com meu pai ajudando-o com a gravata, ele com um cálice na mão, quando ouvimos um baque surdo que senti subir pelas pernas. Ele desceu correndo a escada, deixando a bebida na minha mão. Carregou a noiva pro quarto, mas ela quase gritava que estava tudo bem. Se casaram. O vestido branco (nada mais justo) e o gesso contrastavam, esse último já estava amarelado. Alguém teve a idéia, ignorada injustamente, de passar uma mão de látex pra deixar tudo mais assim, parecido.
Três dias depois atravessei a rua e entrei animado no banco. Uma senhora de vestido vermelho não teve problemas para passar pro lado de dentro com a permissão da porta giratória. Na minha vez vi o chão chegar perto de mim, numa queda grotesca com um braço pra frente, preso na porta giratória. Um grandalhão que queria sair forçou a porta (eu era funcionário do banco, vingança?) e o meu braço direito querbrou, o braço que mais gostava. Fiquei uma hora esperando num hospital que o gerente me levou. Algum idiota brincou comigo por eu ter chorado. Voltei pra casa mais cedo. A porta estava meio aberta, uma garrava virada deixava vinho cair pelo sofá, isso já tinha acontecido outras vezes. Fui pro meu quarto. De lá ouvi uns barulhos, fui direto pro quarto dos casados. Abri a porta de um jeito que sabia que não faria ruido algum (vai saber o porquê). Meu pai estava em cima da esposa, a cabeça dela pendia pra fora da cama, não fiquei constrangido por que Inácia estava pálida, imóvel e seus olhos sem cor. As mãos do meu pai saíam agora do pescoço dela. Ele tremia, afobado. Inácia estava tão estrábica que parecia ter chorado pra cima, lágrimas ainda desciam dos seus olhos rumo a testa. Fechei a porta, “era a gravidade”, pensei. Entrei no meu quarto, minha cabeça girava. Risquei no meu gesso a data.




