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Estado de dicionário
Marcelo Magalhães
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Se ao menos eu soubesse o seu nome. Só isso: o abre-te-sésamo. Como saber seu nome eis a questão. Se te pergunto ou se arranco de alguma forma nem sei qual.
Sabendo seu nome se eu o jogasse no Google eu saberia então de tudo. O Google me listaria desinteressado cada uma das suas mil faces. De onde você veio ou para onde vai. Quem são as pessoas às sua volta. Seus amigos. Seus colegas de trabalho. Sua família até talvez. Se foi filha de hippies. Se foi filha de stalinistas. Se gosta de bolero ou de café. É tão fácil. Eu saberia dos lugares aonde você vai aos sábados. E dos seus livros favoritos e da sua academia de ginástica. Eu poderia ler livros e fazer ginástica e aos sábados ir a algum determinado restaurante. Levaria tempo – o tempo de eu ser a outra pessoa. Me dê alguns meses. Anos quem sabe. Em algum momento eu te alcançaria. De agora só preciso do seu nome e do Google. Pois o Google sem uma palavra-chave é um sol desligado: não aquece nem ilumina.
O Google me diria o número da sua carteira de identidade. E me diria se você foi assaltada no carnaval ou se foi aprovada para aquele concurso. Onde você trabalha e onde gostaria de trabalhar. As fotos do seu cachorro e as suas também naturalmente. O Google me diria do seu fotolog ou do seu blog se você o tiver. Você tendo um blog eu te leria cada palavra de desabafo ou de comentário banal de qualquer coisa. Pouco me importaria pois seria você falando. O seu perfil no blog me traria o seu signo do zodíaco e a sua foto e os outros blogs possivelmente abandonados pelo meio do caminho. O blog traria talvez um link para os seus perfis do Orkut e do Facebook.
Os seus perfis do Orkut e do Facebook: chego mais perto e te contemplo. Quem são seus amigos e de onde vieram e para onde vão. Em qual data a sua amiga mais antiga escreveu um testemonial declarando amizade eterna. Ou então o dia de um amigo não tão próximo te desejar feliz aniversário. O seu aniversário. Os seus scraps escritos. O seu scrapbook. As suas comunidades. Cada um dos seus interesses. As suas manias. Adoro dormir de conchinha. Estouradores de plástico-bolha. Eu estouraria plástico-bolha e juro por Deus eu aprenderia a dormir de conchinha. Eu iria a uma festa de música black e aprenderia tudo sobre David Toscana e David Lynch. Era só você ter essas comunidades cada uma delas eu a estudaria cuidadoso. Porque posso me formar à sua imagem e semelhança. Porque eu sou uma massa disforme. Moça – te chamo assim ainda – você não me conhece. Você não imagina. Eu seria para você o melhor entre todos os outros. Você vai ver. Eu posso descobrir tudo sobre você e ser tudo o mais desejado por você de encontrar por aí. O Google me diz. O Orkut confirma e diz mais. O Facebook. MySpace. É tão fácil. Você – minha querida – você está na internet em estado de dicionário: poderia encontrar cada detalhe da sua definição. Sabendo o seu nome apenas.
O seu nome. Juliana ou Gumercinda ou outra coisa. Não sei. Deve ser um nome improvável aposto. Pois o seu nome aposto nunca me passou pela cabeça. Nunca o seu nome estará na ponta da minha língua nem nunca me dará a sensação de já saber dele há séculos. O seu nome – isso o Google me nega. Só o seu nome falta. Juliana ou Gumercida ou Rachel ou Laila. O seu nome se choca contra a face neutra e sonolenta da tela do computador:
— Trouxeste a chave? — me pergunta o Google sem interesse pela resposta pobre ou terrível. Porque o Google exercita aí o seu poder de silêncio. E eu não perco tempo em mentir.




