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fogo-fato

H.A. Rodriguez

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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Essa é a minha história, não tem nada de mais. Começa de dia e termina de noite. Eu trabalho com cinema, acendo cigarros, todos os cigarros. Do diretor, das atrizes, do contra-regra. Eu acendo cigarros de nove da manhã até as três da manhã no dia seguinte. Isso pode ser bastante cansativo. E eu nem fumo. Minha mulher, eu a chamo assim, não faz nada, o dia inteiro. Seu trabalho é ser minha mulher, o que ela faz muito mal. Meu motorista é o Joelson, mas de vez em quando é o Celso. Eles dirigem o 015, não tem ar-condicionado, chego todo suado no trabalho. Um dia, o fluído do meu isqueiro acabou, o do outro também e o do outro também. Na verdade, não acabou, falhou, mas pro meu chefe, quem falhou fui eu. Nem seguro desemprego eu tive. Em casa os três funcionaram. Teria que procurar outro emprego. Minha mulher continuava deitada. O dia não terminava mais de noite, terminava comigo acendendo isqueiros que nunca mais chegariam perto de cigarros. Não era o sol, era a lua que me irritava, não tinha fumaça. Fui ser chapeiro, tinha fumaça mas fedia. Fui trabalhar em tabacaria, mas não podia acender nada. Frustrante. Outro dia a mulher virou para mim com uma xícara de café, fiquei emocionado, ela fez algo. E cheirava bem. E tinha fumaça, mas durava pouco. Comecei a queimar sacos de café, o cheiro não era tão bom quanto eu imaginava, mas eu gostei. Comecei a queimar papel higiênico, jornal, cortinas e roupas. Hoje eu queimo casas abandonadas, fumaça suficiente pra me alimentar.