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O Carro
Yrigoyen
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Era muito difícil saber há quanto tempo eu vivia ali, naquele carro. Eram anos, e dava para perceber pelas minhas pernas já quase sem movimento. Eu passava dias e semanas e meses sentado no carro. Dirigindo pela cidade, sem destino.
Não, eu não sou taxista, nem tampouco trabalho com entregas ou algo do estilo. Sou um nada que dirige um carro velho pelas ruas da cidade.
A loira magrinha já estava comigo há muito tempo. Sentada aí ao lado, nunca escutei ela falar mais do que três ou quatro palavras. Sempre as mesmas: fome, banheiro e algumas outras. Eu a encontrei um dia na avenida Belgrano. Fez sinal para mim, apesar de meu carro não ser um táxi, como já disse, e parei. Abriu a porta, sentou no banco do passageiro e continuei dirigindo.
Parávamos em algum bar para usar o banheiro e era um dos raros momentos em que saíamos do carro. Uma vez ou outra, pegávamos uma estrada e, sem nos afastarmos muito da cidade, parávamos num posto para tomarmos banho, quando fazia muito calor.
Sempre comíamos no carro. A gente gostava de drive-thru, eram perfeitos. Conhecíamos todas as ruas mais importantes e menos importantes da cidade. À noite estacionávamos nas ruas. Além de dormir por algum tempo, transávamos no banco de trás. O melhor era estacionar perto dos parques, porque podíamos gritar quanto quiséssemos.
Depois de um tempo, minhas pernas começaram a ficar flácidas, minha barriga foi crescendo e minha vontade envelheceu. Mas ela continuava magrinha e jovem, algo que eu não conseguia compreender, mas também não dava muita bola. Eu nem me dava ao trabalho de pular para o banco de trás. Parava o carro e fechava os olhos. Nada mais.
Ao contrário, ela ainda tinha muito tesão e algumas noites fui acordado pelo seu gozo solitário. Não me incomodava, eu só ficava esperando o fim para voltar a dormir. Nunca se queixou ou disse algo.
Os dias passavam vagarosos e calorentos. O tráfego da cidade ia piorando com o avanço dos anos. Agora ficávamos parados por horas em congestionamentos com a fumaça de ônibus e táxis entrando pelas janelas. Continuávamos sentados, olhando as lojas e as pessoas nas ruas sempre apressadas. Pelo menos, nos primeiros tempos nos olhávamos. Agora, cada um olhava para seu lado e pronto.
Eu tentei lembrar os dias em que vivia sozinho no carro, mas faz tanto tempo que ela vive aí ao meu lado que os dias de solidão ficaram enterrados na memória. Coisa estranha essa memória, não consegui me lembrar de nenhum momento antes da loira. Era como se estivéssemos juntos dentro do carro desde sempre.
Tive alguns dias de angústia por causa disso, mas depois me acostumei. Como a tudo, para falar a verdade. Os banheiros sujos, as pernas flácidas, o pinto atrofiado e outras coisas.
Até o dia que, ao passar de novo pela avenida Belgrano, a loira magrinha disse:
– Pare aqui!
Eu parei, surpreendido.
Desceu do carro e andou pela avenida em direção ao centro. Fez sinal para um carro. O cara parou e a loira entrou. Passou por mim sem olhar. Depois de uns vinte minutos em que cochilei sem perceber, voltei a dirigir pela cidade. Comi um lanche com uma Coca e fui ao banheiro num bar velho em La Plata. Faz tanto tempo que estou neste carro sozinho que já nem me lembro de como era antes de viver aqui. E sempre estive sozinho.




