+
- 154 AuTossabOtagem
- 117 Grotas Gretadas sem Gotas Caídas
- 66 Não Prometa o que Pode Acontecer!
- 65 FELICIDADE EM UMA CAMA KING SIZE
- 59 Bertolucci
- 54 O azul dos necrotérios.
- 48 Tsurus
- 27 naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
- 20 Cuidado, carneiros na pista!
- 13 Laurinha
- 12 Devolução
- 6 APARTAÇÃO
- 5 Ou Ritmo
- 4 O Chapéu
- 4 95 anos servem pra quê?
- 4 Era Ela.
- 4 Minha casa
- 4 Teresa em fuga
- 2 AMIZADE
Preencha os campos destacados.
AVISO
Os comentários abusivos serão eliminados. Notifique-nos: comente@revistaficcoes.com.br
Herói do Dia
Mersault
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Para Sofia.
Esse é o início do conto. Aqui, como narrador, uma das primeiras coisas que preciso fazer é situar você a respeito do protagonista. Se chama Breno e está prestes a atravessar uma movimentada avenida de uma grande cidade qualquer. Nesse momento, mesmo que as referências a respeito do que é uma grande cidade e uma avenida mudem ligeiramente de pessoa para pessoa, há boas chances de que você tenha imaginado um cenário bem próximo do que eu vejo. Aliás, do que Breno vê, pois embora eu seja um narrador em terceira pessoa, não sou onisciente, o que significa que só tenho acesso, nesse conto, aos pensamentos do protagonista e só vejo o que ele vê. Nesse exato instante, Breno está parado bem rente ao meio-fio da calçada. Olha para cima, em busca do sinal, mas ao invés do vermelho encontra um amarelo intenso, não o de “atenção”, mas o do sol, o que lhe causa um desconforto momentâneo nos olhos. Esse é um bom momento para que eu diga que Breno não está só. Ao redor dele, inúmeras pessoas também esperam para atravessar. Dentre elas, e agora introduzo a segunda personagem do conto, há uma menina. Obviamente, não sei seu nome, já que Breno não sabe. Mas entre aquela massa inerte de pessoas, ela se destaca, porque tenta, de todas as formas, se desvencilhar da mão de uma mulher que a acompanha, e que Breno imagina ser a mãe da garota.
Dito isso, está acabada a introdução e começa a parte central do conto, que é o ponto de partida para uma tensão narrativa que precisa se estender até o final. As pessoas olham para o sinal. Breno olha para a menina. A menina olha para um vendedor de balões do outro lado da rua, o que explica sua impaciência para atravessar. Ele carrega uma penca enorme e colorida. Há inclusive balões vermelhos, o que é especialmente curioso pois são da mesma cor do carro que acaba de aparecer e que parece vir rápido demais para um sinal que está prestes a fechar para ele. Verde. Significa “Prossiga” para a massa inerte, para Breno e para a menina que finalmente se desgarra da mãe e corre em direção ao outro lado da avenida, o que não seria um problema se o carro vermelho não estivesse se aproximando tão rapidamente. Breno olha para e menina que começa a correr. Embora pareça clichê, ele ganha uma percepção mais apurada dos acontecimentos nesse momento. Capta detalhes com a visão periférica e tudo acontece mais devagar ao redor dele. A menina alcança o meio da pista, que nesse instante, coincide com o meio do carro, que agora está a poucos centímetros dela. A mãe inicia um movimento que levará as mãos à boca. Breno pega impulso e se lança no ar, projetando o corpo de encontro à menina e, consequentemente, ao lado oposto da pista. As mãos da mãe estão agora na metade do caminho, na altura do peito. Breno continua no ar, mãos estendidas prestes a tocar a garota. Finalmente sente o baque contra o chão, sente a menina em seus braços e a massa ao redor, atônita. As mãos da mãe já alcançaram a boca. O carro alçançou a calçada numa manobra extrema. O sangue alcança as mãos de Breno. O mesmo sangue que pinta o meio-fio de vermelho e brota da cabeça da menina.
Esse é o pico mais alto da tensão narrativa. Daqui em diante o conto se encaminha para o final. Ele tenta reanimá-la. Sacode o corpo inerte em seus braços, tenta ouvir o coração, o pulso. Não há volta. O burburinho aumenta ao seu redor e ele ouve os primeiros “Acho que o cara matou a menina”., “Mas o carro desviou a tempo”, “A menina bateu com a cabeça no chão”, “Liga pros bombeiros, pra políca”. A mãe, desatinada, corre em sua direção e é preciso que a segurem, pois está fora de si. O número de pessoas já aumentou consideravelmente. Dentre elas, um homem aparece e vem em direção a Breno. Ele olha para menina estendida na calçada e para Breno, que agora está sentado no chão, com a cebeça entre os joelhos. O homem começa com um inesperado chute no rosto. O sangue de Breno mistura-se ao da menina, no chão. A partir daí segue-se uma sequência de golpes espaçados, secos e precisos, mas brutais. Breno apanha quieto. Não sabe bem porquê. Parece justo. A massa já não parece tão inerte. Entre um golpe e outro, Breno vislumbra algumas expressões de aprovação ao seu redor. O homem bate forte, até o fim. É o herói do dia.




