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Sandra, gostosa e mentecapta
Pig Bodine
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Eu fora abandonado pelo helicóptero de RH da minha empresa numa ilha deserta a fim de conduzir as mesmas pesquisas de sempre, apertar aqui e ali o ramo de uma ou outra árvore, anotar tudo no meu caderninho. Ao longe avistei Sandra. “Oi,” eu disse. Éramos os únicos no lugar, não havia razão para que ela se recusasse a falar comigo. “Oi?” Ela disse. “Oi,” eu disse. “Oi?” Ela disse. “Oi,” eu disse, “eu estou sozinho, você está sozinha, estamos numa ilha deserta, estamos com fome, sujos, há dias não vemos ninguém e é uma sorte danada termos nos encontrado. Você quer um suco?” “Oi?” Ela disse. “Um suco?” Eu insisti. “Um suco?” Ela insistiu. “Sim, sabe, nesta ilha deserta em que estamos os dois sujos, famintos e há vários dias há várias frutas, dentre elas a laranja, com cujo caldo se faz, na minha opinião, o mais delicioso dos sucos. Caso laranjas não lhe agradem, há também o vinhedo, dentro do vulcão, um vinhedo estranho, as suas folhas são do tamanho de crianças pequenas. Não há aqui crianças com as quais compará-las, mas eu lhe garanto, você pode confiar em mim, aceitar, aceitar é a coisa certa a fazer posto estamos numa ilha e agora somos amigos, melhores amigos, nesta ilha deserta. Você quer um suco?” Ela aceitou, ou então não aceitou – o fato é que mexeu a cabeça. Mais tarde bebemos o suco. Fomos resgatados por um homem rico numa lancha e voltamos para a cidade. Os seus hábitos selvagens foram pouco a pouco se transformando em outra espécie de hábitos selvagens: agora ela tomava banho embaixo do chuveiro, nua, e nua andava pela casa, não-depilada, sentindo-se, ao contrário de mim, totalmente à vontade; agora ela grunhia baixinho, claramente, sofisticadamente. Instrui-a nas maneiras dos homens: comprei-lhe sutiãs (Sandra não tinha como nem via por que trabalhar), comprei-lhe meias, comprei-lhe calcinhas e blusas e calças de veludo estampadas com animaizinhos que lhe lembravam a ilha e a faziam sentir-se mais à vontade. Outro aspecto em que logrei melhorá-la foi o musical: escondi a harpa que, na ilha, ela tocava, acompanhada por um coro de animaizinhos silvestres, e entreguei-lhe uma harmônica, o instrumento certo para quem almeja ascender socialmente feito louco. De início, percebi que ela se sentia confusa. Batia os dedos nas aberturas; o único som que saía era abafadinho, miserável, a custo audível. Com muita prática, entretanto, Sandra chegou a reproduzir na harmônica, dedilhando-a, técnica aliás originalíssima e portanto em algum grau digna de mérito, todas as terríveis melodias que concebera na ilha.
Eu me aproximara do fogo. Sandra vinha contornando o chalé, seguida do seu Séquito Selvagem. Harpa à mão, sorriso estampado, boca bem aberta. Terror escorrendo da boca. Eu entrara no chalé pela janela, fingindo que não a havia percebido ainda; mas não adiantara, a música se infiltrava pela madeira, pelo buraco da chaminé. Quando me dei conta de que o chalé não devia estar lá, cerrei bem os dentes; mas não sei, Sandra alcançava naquele exato momento o clímax da sua obra menos acabada, pode ter sido coincidência. O Séquito Selvagem, supostamente inocente posto que Selvagem, acumulara-se nas janelas; entredentes salientes os esquilos assobiavam harmonias imaginárias, sorrindo. “Parem,” eu disse, “parem, parem!” “Hic, hic, hic!” Eles responderam, sorrindo. Ateei fogo ao chalé comigo dentro sem pensar no que estava fazendo, naquela época eu estava um pouco fora de mim. Foi quando Sandra percebeu que havia ido longe demais. Parou imediatamente de cantar; na sua selvageria tonta, entrou arrombando a porta, correu comigo embaixo do braço até lá fora. Eu estava imensamente bravo com ela por não ter me deixado queimar. “Obrigado,” eu disse. “Obrigado?” Ela disse. “Obrigado,” eu disse. “É o que se diz quando alguém salva a sua vida, lá de onde eu venho, e salvar a minha vida é o que você acaba de fazer.” Para ilustrar o que dissera, rabisquei na areia com um ramo de oliveira um chimpanzé abraçado a outro chimpanzé, os dois felizes, e escrevi OBRIGADO em cima. Uma onda veio e apagou o meu desenho; Sandra se meteu a chorar. Cutuquei-a com o ramo de oliveira logo abaixo do umbigo, o que pareceu fazê-la feliz. Seria uma noite memorável. Mas durante a madrugada, um nos braços do outro, escutamos o som da lava tostando o Séquito Selvagem, e tivemos de correr em direção ao mar. Pela manhã encontramos fósseis recém-fabricados espalhados por toda a extensão da areia enegrecida.
No meu apartamento, Sandra meteu a cabeça para fora da janela e começou a gritar para a lua, como fazia na ilha quando subia ao topo do penhasco, cuja altura relativa ao vale, eu imagino, se equipara à do nono andar. Com um sorriso, sentado ao pé da lareira, eu viro a página do meu livro, tomo um gole do meu uísque, espero paternalmente a minha barba crescer. As coisas iam bem para mim, eu me sentia no meu elemento aqui na cidade; trabalhava como um cavalo, comia como um porco, dormia como uma pedra e, depois do banho, cheirava a frutas cítricas. O oposto, entretanto, acontecia com Sandra. Ela parecia não se adaptar. Ao me ver entrar pela porta virava a cara, empinava o nariz, balançava voluptuosamente os quadris. Ou então, em dias felizes, pulava sobre o meu peito, hálito pútrido me lambia o rosto, roçava as suas coxas contra as minhas. O seu cheiro piorara muito, lembrava carburadores, máquinas enguiçadas, e eu me perguntava o que ela andara comendo na minha ausência, ou por onde ela andara andando, e com quem, e quais eram as suas intenções, se é que as tinha. Mas Sandra, ainda não tendo aprendido a falar, me olhava indiferente. Um dia respondeu: “Suco?” Outro dia respondeu: “Obrigado?” Ainda outro dia respondeu: “Parem, parem, parem!” E riu “Hic hic hic,” feito um esquilo. Havíamos trazido para cá todos os fósseis dos seus amiguinhos, os quais entulhavam o meu escritório, forçando-me a trabalhar na sala - o que, a bem dizer, não era trabalho, mas observar Sandra nua uivando pela janela. Ela parecia não se importar. Bem diferente de agora. Nas horas vagas sentava e olhava para a Bíblia, hábito aprendido de um jesuíta que freqüentara a sua cabana. Eu fechei o meu livro, olhei para a lua, abri o meu livro, fechei o meu livro, levei-a para a cama, acabamos exaustos e ternos um nos braços do outro, como sempre. Acordei de um pesadelo no meio da noite e me decidi a ministrar um curso de civilidade para Sandra a partir do dia seguinte.
Os fragmentos foram o assunto da primeira aula – meu erro, talvez, não sei. Ela não entendia o que eu dizia, a não ser uma ou outra palavra, uma frase repetida à exaustão, especialmente ordens curtas e objetivas como “Passe-me o tomate”, “Faça a barba”, “Tire as minhas roupas”. O inverno chegou; ensinei-lhe o que era, para que servia, a quantidade de tempo que durava, o que era o tempo, o que era durar, o que era o que, quantas vezes era preciso tomar banho por dia, e o que era um banho, e um dia, e quantas. Várias vezes ela demonstrou interesse pelo cigarro; estendia a mão na direção dos meus lábios, arredondava a boca e soprava. Ficava adorável. “Fumar é um hábito ruim”, eu disse. Acordei com o alarme de incêndio na manhã seguinte e corri para a sala, onde constatei, com horror, que Sandra bafejava o pé da minha poltrona de descanso. O meu método moderno me impediu de aplicar-lhe punição corporal; simplesmente dei meia-volta, abri a gaveta e joguei toda a sua loção hidratante no vaso sanitário. Antes que eu puxasse a descarga, Sandra apareceu na porta. Olhou-me fixamente por alguns segundos, durante os quais eu permaneci imóvel, como que sentindo a iminência de algum evento importante. Mas nada aconteceu. Na aula seguinte, ensinei-lhe o que era um vaso sanitário, o que eram jóias, e para que serviam ambas as coisas, o que fazer caso uma se misturasse à outra etc. Meu erro, decididamente: Sandra, gostosa e mentecapta, entrou em greve de sexo com o objetivo de me fazer largar mão dos fragmentos. Não que a situação não fosse crítica. Se acossado, eu admito que era, embora não saiba ao certo a validade desta admissão. O problema era que eu não sabia como, nem por onde começar a largar os fragmentos – nem sabia o que ela queria dizer quando falava “fragmentos”, uma vez que, mentecapta, Sandra pensava um pouco como um gênio, e gostosa, um pouco como um animal – duas categorias nas quais eu não acredito me enquadrar, exceto por um ou dois segundos, e alternadamente. Além disso, para aumentar a minha confusão, ela não tinha formação acadêmica, literária, ou mesmo genericamente humanística que justificasse sua preocupação com o assunto. Dei-lhe parte das minhas dúvidas; ao que ela me manifestou a vontade, até então impronunciada, de ceder nos seus propósitos, contanto eu simplesmente repetisse à exaustão a seguinte frase: “Perdoai-me, pois sou um mau menino e não sei o que faço.” Dito sem hesitações (bem vale uma missa), veio a reconciliação, seguida por um período de quinze minutos de troca de insultos.
Ao longe ouvíamos tambores. Estávamos no chalé, na ilha, buscando conforto em jogos de tabuleiro trazidos comigo da cidade. Sandra estava vencendo; agora de novo, em outro jogo; e outra vez, em ainda outro jogo. Os tambores iam se aproximando, eu perto da bancarrota no banco imobiliário, eu o assassino no detetive, eu o descoordenado no Gênese ®. Os tambores iam se aproximando, eu nu no poker, eu sujo no dorminhoco, eu quebrado na canastra e na roleta, cada vez mais perto. Bateram à nossa porta; tiramos cara ou coroa, o perdedor atenderia. Abri a porta dizendo: “Pois não?” Os canibais responderam: “Vocês estão invadindo propriedade privada, senhor. Esta ilha está registrada no nome do grande líder Urkhanatom, sob cuja devida procuração seremos obrigados, infelizmente, a arrancar os seus dentes todinhos, um por um, e depois fazer outras coisas igualmente terríveis, sem anestesia, sem pressa, caso não queiram se retirar daqui de boa vontade dentro de vinte e quatro horas.” Perguntei-lhes a respeito de Urkhanatom. Seria impossível, informaram-me, arranjar uma reunião com ele dentro de vinte e quatro horas: amanhã seria o aniversário da sua filha mais nova, ele estava no banheiro, vomitando. Perguntei-lhes também a respeito das suas condições trabalhistas. “São péssimas,” eles disseram, “mas quem está reclamando?” Silêncio. “Não eu,” retomaram. “O que é uma anestesia?” Eu perguntei. Eles se olharam, temerosos, e sublimaram em direção à lua.




