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Tsurus

Daniel Moreno

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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Às cores; todas elas.

Todos os dias passo na ponte do parque Akaifuu. Deixo que algum instante escorregue enquanto observo os tsurus dançando. Reconheço aquele casal, a pena vermelha única e deslocada na asa direita da fêmea e o macho de canto mais agudo que os demais. Ser um tsuru, com um parceiro-espelho dançando comigo: ininterruptos, anunciando ao mundo o tamanho da dor que nos tomaria se alguma distância fosse espremida entre nós; amadurecermos e dançarmos menos, e menos, e menos, para nos olharmos mais e adormecermos convolutos. Incrível como eles suportam tanto frio para bailarem frente a frente.
A tua falta de medo de perder a alma pela boca que me pôs devoto a ti por completo. Meu sangue pulsou ao contrário quando vi o quão brancos teus dentes eram naquele riso, naquela gargalhada. Toda a mesa ria comedida, segurando o que tinha por dentro com os dedos e a palma da mão; tu derramavas o ser feliz pelos cantos da boca, pelo palato à vista, pela úvula rosada – um espírito tão grande não temia escapar um tantinho só. E te ias como se sempre fosses voltar para completar o diálogo frouxo que restava nos ambientes abandonados.

Ainda estava morno quando tu chegaste. Avistamo-nos no exato momento em que decidi não mais piscar os olhos. Saboreei o teu sotaque torto. E me pareceu óbvio o motivo de eu ter comprado os papeis de origami no dia anterior – faria agora mil tsurus, aos moldes dos dançarinos do parque, a fim de que pudesse desejar, quando estivessem prontos, ter ar para te dizer das belas sakuras que desabrocharam no parque, nas paredes do meu quarto e em mim naquele dia.

Ontem à tarde, quando todos no templo Niji, pendurei um amuleto pensando em ti. Pedi que o meu desejo fosse maior, maior que a espera pela Primavera.

Hoje me ponho de pé, diante do teu aconchegante portão verde, afundando devagar na neve teimosamente branca, buscando o fôlego no ar fino e raro do Inverno. Seguro para te dar, suave e firme, o meu desejo: o milésimo tsuru dobrado na estampa das mesmas sakuras internas.

Este tsuru é teu.

Alcanço a porta da frente, que é aberta quase a tempo de eu me evadir. Um aroma de chocolate escapa de lá, doce. Atrevo-me a pensar que estás a me preparar um chocolate pelo 14 de Fevereiro. Talvez com cerejas frescas? Surge então a anfitriã, o motor da porta astuta. Uma garota de cabelo brasil e olhos pactuados com a brasa dos fios. Ela não foca ponto algum que pudesse ser alcançado. Aproxima-se morosa e perene. E me põe na palma da mão, junto com algumas lágrimas (não sei a quem pertencem), uma pena vermelha.

Enterrei-os, todos os tsurus.