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Cuidado, carneiros na pista!

Cassiano Sá

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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Para Kyara Muniz

Com o pulso esquerdo encostado no portão dos fundos e um cigarro entre os dedos de unhas pintadas de vermelho fechado Inha se lembrava de como era bom aquele tempo sem relógio e não-me-toques. A cada tragada ela resgatava as brincadeiras de rua, quando subir em árvore era o máximo, ser confundida com goiabas, mangas, pitombas. Na fumaça do cigarro vinha a poeira da barra-bandeira pega-pega esconde-esconde e também Bruno filho de Antônia com seus olhos castanhos claros verde quase mar e as sobrancelhas arqueadas com umas falhinhas e grossas. Desculpe não colocar nenhuma vírgula nessa sentença, leitor. É que quando Inha brincava não tinha pausa a não ser para olhar Bruno. Na brincadeira de esconde-esconde Inha fazia questão de desaparecer onde Bruno aparecia. Ela escondia um desejo no buraco do coração. Buraco do coração era o nome que os meninos deram a uma barreira em forma de coração que tinha no outro lado da rua de cima. E era o sentimento dela.

Inha jogou a ponta do cigarro, lavou os pés para dormir e a mente coloriu os banhos de rio, as pedras que juntava numa latinha e dizia que eram preciosas, os bonequinhos de massapê. Um dia, naquele mesmo esconderijo, Inha disse para Bruno que as nuvens eram carneirinhos e que aquelas pedras que ela guardava eram os beijos que ela queria dar.

Inha esticou o lençol e deitou a cabeça no travesseiro. Não conseguia dormir, Bruno na cabeça. Inha, aos 35 anos contou carneirinhos como em criança. Não os carneirinhos daquelas estradas de barro. Quinhentos e um, quinhetos e dois... pegou no sono e sonhou com o filho de Antônia com seus olhos castanhos claros verde quase mar e as sobrancelhas arqueadas com umas falhinhas e grossas.