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Devolução

Inês Barreto

Conto candidato FICÇÕES VINTE

IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.

- A +


Os objetos esquecidos no hotel iam para a recepção. Ficavam lá por 15 dias. Se os donos não aparecessem, eles eram doados aos funcionários. Com isso teve gente que ficou com relógios importados, perfumes franceses, gravatas de seda e todo o tipo de tralhas que os hóspedes deixavam para trás.

Os livros sempre ficavam para Júlia, a mais velha das recepcionistas, que trabalhava lá há mais de 30 anos. Ela tinha uma coleção dos exemplares esquecidos. Alguns traziam dedicatórias, outros tinham bilhetes dentro e alguns eram anotados. Ela amava e guardava todos como se fossem mais do que a história da narrativa. Ela os considerava parte das histórias das pessoas que os esqueceram e, assim, ela também faria parte de vários contos.

Quando um cliente ligava para reclamar um livro, ela avaliava. Se era uma obra que queria ler ou ter, inventava uma regra do tipo “só pode ser retirado pessoalmente”. Não se importava de perder um cliente ocasional para ganhar um livro para a vida toda. Se era um livro chato, repetido, ou de um autor que ela não gostava, pegava o endereço e mandava pelo correio. Mas raramente eles ligavam, a não ser que fosse um dos livros de criança dos filhos, ou alguma coisa de trabalho.

As histórias sempre eram menosprezadas pelos hóspedes ocupados. Mas Júlia estava lá para cuidar delas. Quando Lia ligou, ela soltou a regra inventada. A moça tinha saído do hotel há dois dias e esquecera um livro de uma escritora inglesa, sobre uma moça que voltava para sua ilha natal. Júlia estava contando os dias para ficar com aquele assim que a arrumadeira entregou-o para a caixa de Achados e Perdidos.

— A senhora precisa vir buscá-lo pessoalmente.

— Mas como eu vou fazer isso? Estou a 300 km de distância!

— A senhora tem 15 dias, a partir do dia que fez o check-out.

— Mas vocês não podem me enviar o livro? Eu pago.

— Não, senhora. Só devolvemos pessoalmente para ter certeza de que é do hóspede.

— Mas moça, eu não tenho como ir aí pessoalmente, e em 15 dias! E outra, meu irmão ficou hospedado aí, esqueceu um relógio Bulgari e vocês mandaram para ele.

— São políticas diferentes, senhora. 

— Ah, então um relógio importado vocês mandam, e um livro de merda não?

Livro de merda? Se era assim que ela o tratava, então não merecia tê-lo de volta. — A política é diferente, senhora, já lhe disse. Diante da sua insatisfação, o que posso fazer é contar os 15 dias a partir de hoje.

Lia murmurou que ia ver o que faria, disse um obrigado muito irritado e desligou. Júlia perdeu a paciência também. Como imaginou que ela era bem capaz de aparecer lá, em um horário que outra recepcionista estivesse, levou-o para casa. Resolveu que o leria e mandou os 15 dias às favas.

Havia passado mais de uma semana desde o telefonema. Júlia estava em um de seus dias de folga, lendo no quarto, quando a campainha tocou. Ela estranhou e, meio assustada, foi atender. Chovia muito e ela não conseguia ver pela janela quem estava tocando. Atendeu mesmo assim. Na soleira estava uma moça, na casa dos 20 anos, alta e com o cabelo bem curto. Estava molhada por causa da chuva e parecia irritada.

— Pois não?

— Eu gostaria de falar com a… — a moça olhou um papel molhado e amassado na sua mão — dona Júlia.

— Sou eu. Em que posso ajudar?

— Meu nome é Lia. Eu vim buscar meu livro.

— Seu… livro…?

— É. Eu esqueci no hotel onde a senhora trabalha. Me informaram que eu devia buscá-lo pessoalmente e quando eu cheguei lá disseram que a senhora talvez tivesse levado.

Júlia olhou de cima a baixo, com uma expressão fechada. Lia percebeu e emendou

— Olha, eu sinto muito incomodar, mas é um livro muito especial e eu não queria ficar sem ele.

— Desculpe, não sei do que você está falando...

— Moça, por favor... o livro é bem importante para mim. Tem dedicatória e tudo, eu ganhei de uma pessoa que eu gosto muito. Você pode me devolver, por favor? 

— E se eu disser que não posso?

Lia ficou calada e olhou para o chão. Achou que uma viagem de 300 km, uma caminhada na chuva e uma história tocante seriam o suficiente para sensibilizar a pessoa que pegou o seu livro, mas não funcionou.

—Tá bom. Se você não quer devolver, não precisa. Desculpe incomodar. Agora era Júlia quem não esperava. Ela estava achando que aquela mocinha petulante ia entrar a força, procurar o livro pela casa e sair levando a porta junto. Mas ela simplesmente desistiu e resolveu ir embora. E parecia triste. Alguém que não se importava com o livro não ficaria triste sem ele.

— Espera um minuto. — A moça já estava abrindo o guarda-chuva para sair quando a velha sumiu pela porta. Voltou dois minutos depois com o livro enrolado num saco plástico.

— Tome. É seu, então fique com ele. Mas cuide bem. Vou cuidar. Obrigada. — Lia não demonstrou nenhum tipo de gratidão. Para ela, a outra não fazia mais do que a sua obrigação em devolver o exemplar. Terminou de abrir o guarda chuva e saiu para a calçada no meio da tempestade.

Dias depois, Júlia recebeu um pacote do correio, em seu nome, na recepção do hotel. Estava sem remetente e vinha com um bilhete escrito à mão pelo chefe da correspondência, recomendando que não fosse aberto. Mesmo assim, ela ignorou a advertência e abriu. Era uma cópia nova do livro que ela devolveu na semana anterior. Na primeira capa, estava escrita a seguinte dedicatória: “Já que você fazia tanta questão, achei que seria justo ter um só para você. Lia”.