+
- 154 AuTossabOtagem
- 117 Grotas Gretadas sem Gotas Caídas
- 66 Não Prometa o que Pode Acontecer!
- 65 FELICIDADE EM UMA CAMA KING SIZE
- 59 Bertolucci
- 54 O azul dos necrotérios.
- 48 Tsurus
- 27 naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
- 20 Cuidado, carneiros na pista!
- 13 Laurinha
- 12 Devolução
- 6 APARTAÇÃO
- 5 Ou Ritmo
- 4 O Chapéu
- 4 95 anos servem pra quê?
- 4 Era Ela.
- 4 Minha casa
- 4 Teresa em fuga
- 2 AMIZADE
Preencha os campos destacados.
AVISO
Os comentários abusivos serão eliminados. Notifique-nos: comente@revistaficcoes.com.br
AMIZADE
Lucio de Campos
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.a Michael Andrews
1 Acabou de ler a própria perna. Deitou-se na relva, traseiro empinado, tostado de sol. Um odor de cânhamo castigava o ar. Impacientou-se. O amigo sempre vinha por ali, naquele horário, assobiando. Em verdade, parecia flutuar. Tinha vocação para isso. Cada passo estalava na relva, sangrando o silêncio que, no campo, era ouro e impressionista. Anos atrás, ainda pequeno, explorara o local, conferira-lhe a ordem. Mesmo assim, insistiu em voltar e seu corpo veio à tona tão logo a fleuma permitiu.
2 Havia um céu oposto ao que era antes. Talvez não houvesse motivo para marejar os olhos, a cabeça cheia de vagares, o corpo espetado por sensações. O mundo se espalhara. – Está a caminho...
3 Por vezes, discordava de si. Pensou com os botões se devera ter vindo ali vigiar a estrada, gastar o tempo tão pateticamente. Afinal de contas, o amigo talvez dele nem lembrasse, olhasse em seus olhos e, grave, perguntasse: – Quem é você?
4 Uma cisma inesperada começou a miná-lo. Pôs-se de lado. Aproveitou para raptar com os olhos um pouco da paisagem. Havia um galho de árvore, um poço abandonado, seixos nos cotovelos. Passados os anos, não se lembrava de nada, mas, por segundos – no auge da inquietação – imaginou-se numa mesa, sem vísceras, uma espécie de “homem-iguana”, de “labareda congelada” como não se via, sem alinho, incompleta.
5 O fato é que não se deixaria misturar com o pó. Vaguearia pela estrada anotando os detalhes. Quem sabe, algo ocorresse e ele visse que não há o que não valha a pena. Estava ali desde cedo, quando a manhã se abriu bruna, desarranjada. Assistira às gradações, meio alheio, de pernas para o ar. Não deu para evitar um prazer que lhe pregava sustos.
6 Ficar se tornou doloroso. Era fácil constatar isso entre as frondes. Com um dos flancos em vias de escurecer, notou algo entre os rochedos. Sozinho, de bruços, sobre a grama mosqueada, entrou num delírio indomável, sem respiração. Olhou, fixamente, para o azul que tingia as ilhotas ao norte.
7 Em pé. Não há matiz mais fulgurante que o arrebol. A cor a escapar do fundo das casas, da topografia líquida que vibrava em flocos com um rancor divino. Lembrou-se da última regata a que assistiu. De qualquer modo, o amigo não passara. Tampouco seu vulto se tornou visível no horizonte. O dorso e a escápula se contraíram. Não seria fácil agüentar por mais tempo. Deliberadamente, viu-se no auge, tépido. Em meio a um nevoeiro, odiou-se com fervor.
8 Deitado. Tomou-o de assalto a esperança. Sentiu-se risível naquela posição. O braço se paralisara contra o fundo ocre. Difícil era dar o passo seguinte. A qualquer momento, o amigo surgiria na estrada e, então, decidiria o que fazer. A luz, a essa altura, se reproduzia na superfície polida do prado que se transformava numa cartela de reflexos. O vento entregava-se a uma marcha surda. Aquela imagem custaria a desgrudar dos olhos: o gado na paisagem de cardos.
9 Em pé. Deitado. Alguém murmura e algo, em volta, emite um ruído rumo à outra ilha. Levemente corado, ruminando sem nexo, o amigo era um leopardo, fadado a anéis de amônia. – A vida é curta.
10 Em pé. Uma gota estouvada e, nos olhos, tudo se derrama. Era o amigo que vinha pela estrada. A última coisa de que lembrou foi o cânhamo. Isso, porém, não importava...




