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- 152 AuTossabOtagem
- 117 Grotas Gretadas sem Gotas Caídas
- 66 Não Prometa o que Pode Acontecer!
- 65 FELICIDADE EM UMA CAMA KING SIZE
- 59 Bertolucci
- 54 O azul dos necrotérios.
- 48 Tsurus
- 27 naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
- 20 Cuidado, carneiros na pista!
- 13 Laurinha
- 12 Devolução
- 6 APARTAÇÃO
- 5 Ou Ritmo
- 4 O Chapéu
- 4 95 anos servem pra quê?
- 4 Era Ela.
- 4 Minha casa
- 4 Teresa em fuga
- 2 AMIZADE
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O Chapéu
Vovô Zito
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Estava sentado num sofá de veludo. A sala era ampla cercada de mobiliário antigo. O ambiente confortável transmitia imponência, ainda que mergulhado naquele cheiro característico de coisas velhas. Mofo. Careteou com a lembrança do cacófato manjado com tal palavra. À sua direita, uma escada larga de madeira encerada por onde sua tia deveria descer, segundo a empregada informara momentos antes. Atrás de uma porta de vidro bisotado entreaberta estava a sala de jantar com as cadeiras cobertas por capas, sugerindo ser o aposento raramente utilizado. Seus olhos pousaram sobre as várias peças cuidadosamente arrumadas. Alguns dos objetos antigos tinha um ar tão falso que até ele, que não era chegado a antiguidades, sentia o cheiro de coisa fajuta. E ainda por cima o conjunto todo tinha gosto duvidoso. Achou que não valeria correr o risco de embolsar uma bugiganga daquelas.
Estava atrás da tia a fim de ver se descolava algum, mas não de afaná-la. Muito menos em uma daquelas pecinhas metidas a antiga que não deveriam valer um mísero centavo nas feirinhas não menos duvidosas de antiguidades. Ela que sempre apregoara ser ele seu sobrinho preferido. Chegara a hora de transformar em coisas práticas aquele papo furado de queridinho da titia. Pois é, em nome desse amor que a tia dizia ter por ele, ali estava, humilhado. Hoje, talvez até uma cafungada no pescoço da velhota funcionasse. Afinal de contas, na infância, ela vivia cobrindo-lhe de beijos e besuntando sua cara de batom. Conforme a forma atual dela, talvez até que nem precisasse ser sacrifício nenhum um carinho mais ousado. Antigamente ele sentia indizível prazer quando ela lhe abraçava com aqueles peitos cheirosos. Muitas vezes, saía direto para o recesso sacrossanto do banheiro, onde as várias deusas de então eram incensadas. Sentado no vaso, olhando a figura exuberante da tia já devidamente pelada por sua imaginação tocava a maior punheta em sua homenagem. Com direito de guardar o cheirinho dela nas roupas para ir gastando pouco a pouco nos transes sucessivas de tesão.
Olhou o relógio. Já estava impaciente com a demora. Finalmente surgiu no alto da escada, numa pose triunfal fazendo um gesto largo, em semicírculo com o braço direito. Pose de estrela ganhando o Oscar. Assim à distância, ainda estava bem bonita. A maquiagem já agora pesava. Plásticas óbvias soltavam gritos dilacerantes. Aquele lábio superior projetado em demasia para a frente, debruçando-se como um toldo carnudo sobre o inferior, o queixinho que quase se apagara com os sucessivos repuxamentos, a face de um brilho que parecia de porcelana de tão esticada agonizavam no seu canto do cisne definitivo. Mesmo assim rugas recalcitrantes teimavam. Mas davam para o gasto. Usava óculos coloridos, um tanto espalhafatosos para um rosto de um oval suave, de linhas ainda perfeitas, que só se vê hoje em dia em estampas antigas. O corpo mostrava-se flexível, obedecendo com desenvoltura à postura teatral imposta pela mulher que queria exibir seu contorno em sua máxima expressão. Ainda, de certa forma, dava conta do recado.
Finalmente a diva chegou à terra. Abraçou-o efusivamente. Beijinhos. Os fartos seios, talvez por causa do silicone , não eram tão quentes e já não se amassavam suaves, penetrando pele adentro como nos abraços de antigamente. Mas continuavam cheirosos. Ela afastou-se um pouco para melhor apreciar o “guapo rapaz diante de meus olhos”. Ela ainda se expressava assim. Ele arrepiou-se todo, não acreditando no que ouvia. Mas era a dura realidade. Piscou os olhos com pestanas de boneca, com malícia. A tia abraçou-o com tudo em cima, mais uma vez. Parece que ela gostou, após a não tão discreta avaliação. E gostava mais a cada reavaliação, os sucessivos abraços e beijos e carinhos na face, expressaram este entusiasmo. Teve o cuidado para não demonstrar o impulso de desviar o rosto que instintivamente quase o fizera. Ele sentiu-se um tanto culpado com a frieza com que recebeu toda aquela manifestação. Onde a quentura dos braços? Onde os seios arfantes que o afogavam? Onde o frio na espinha de quando era menino? Nem limpou o rosto besuntado. Mas jogo é jogo, vai em frente, cara. Você está a perigo, não tem muito o que escolher. Vai nessa, cara, quem sabe pinta uma graninha?
A conversa arrastou-se penosamente. Com direito a um lanche com biscoitos naturebas e execráveis bebidas diets. Cada vez mais uma vontade irresistível de sumir dali. É, acho que não vai dar mesmo. A velha está com jeito que não vai abrir a mão. Desisto. Estava exausto de representar. A tia, então, pediu uma licencinha que eu vou te dar um presente, claro, se você quiser, meu amor. Aproximou-se de uma velha cômoda no outro lado do salão, coberta como uma vistosa pedra mármore rosa com pinta de falsificada. Abriu um gavetão. Ouviu mesmo, ou adivinhou as bolinhas de naftalina rolando. Naquele momento ele sonhou tudo o que tinha direito, caceta, será que ela vai me dar uma barra de ouro ou um saquinho com reluzentes moedas tilintando?
Quando ela se voltou de frente, trazia nas mãos um chapéu. Um inacreditável chapéu. E, enquanto exibia a peça, a tia desfilou um sem números de excelência do ridículo objeto. A importância de quem lhe dera o presente. E que só estava se desfazendo dele como prova do amor que ela dedicava ao mais querido sobrinho da face da terra, etc, etc. Falava pelos cotovelos enaltecendo o chapéu, com direito até à menção do pedigree do molenga objeto. Uma peça rara valiosíssima, que hoje em dia não se vê mais, muito menos aqui nesse país atrasado. Não entendeu muito bem a coisa. Será que estava fazendo hora com a cara, naquela altura, apatetada dele? Não, não, a tia não tinha essas sutilezas. Só raciocinava no concreto. Provavelmente, achava que estava lhe prestando uma homenagem inigualável que só ela poderia proporcionar.
Ficou com ódio. Sabia que a velhota estava cheia da grana. Mas já se convencera que não ia levar nada daquela mão de vaca, metida a estrela de cinema mudo. Ao mesmo tempo começou uma sensação confusa. Agora estava sentindo pena. Veja só. A que ponto eu cheguei. Sentir pena daquela megera. Logo ele que não era chegado a tais frescuras, agora cheio de nobres sentimentos. Qual é cara? Está ficando gagá? Pobre tia, depois de enterrar não sei quantos maridos, estava ali decadente tanto quanto os objetos que a cercavam. Aquela mulher não teria a mínima condição de dar nada para ele. E ele não poderia pagar preço nenhum em troca. Não se aviltaria. Na realidade, sentia-se até aliviado que assim fosse. Sairia dali redescoberto. E isso, sem dúvida, devia à tia. Provavelmente, agora estaria sustentando algum garotão de bíceps volumosos e cabeça oca. Momentos antes ele poderia pensar em entrar nessa também. E até ter ciúmes. Teve engulhos com tais pensamentos. Sentiu orgulho de ter asco desses sentimentos.
Deixou a casa de condomínio luxuoso, com a sensação de encaminhar-se a um portão inexistente. Já não se faziam mais portões como antigamente, nem havia tias acenando antes de fechá-los. No trajeto até o que assim chamavam saída, segurava o chapéu com descaso, pensando na melhor oportunidade de desvencilhar-se daquele trombolho molenga. Olhava para o alto e para os lados, pensou, sorria você está sendo filmado. Já na rua, cruzando com pessoas, tornou a senti-lo nas mãos. Um chapéu, não acredito, o que vou fazer com isso? Todos já estão me olhando. Apesar da noite que se aproximava mostrar-se quente, sentiu-se envolto em todos aqueles agasalhos de sua infância. Passou a mão sobre a cabeça, só faltava o boné de esquimó. Essa corja vai rir de mim. Não, não vou dar este gostinho para ninguém, não uso esse troço, nem a porrada.
Andou mais alguns passos, alisando o chapéu. Depois contemplou-o com carinho de menino. Diante de uma porta de vidro, aprumou-se. Com serenidade, colocou o chapéu na cabeça e sorriu gostando da imagem que estava refletida. Com passos resolutos seguiu em frente. Ninguém olhava para ele.




