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95 anos servem pra quê?
XamaZEN
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Meu pai tem 95 anos e é um sujeito alegre, cheio de vida – como ele mesmo diz – mesmo tendo de usar uma cadeira de rodas. Ontem ele me pediu levá-lo no cemitério. Queria colocar velas nos túmulos dos amigos e amigas que já se foram. E quase todos já se foram. Meu pai, com 95 anos, é o ultimo da sua geração.
Enquanto empurro a cadeira de rodas pelas estreitas ruas do cemitério, com túmulos dos dois lados, ele vai me dando instruções enquanto me alcança as velas que leva no colo.
— Ponha oito nesse aqui. O Almeida sempre foi um grande amigo. Fiel, de confiança.
Eu pego o pacote de velas que ele me alcança, acendo a primeira, viro-a com a chama para baixo, deixando pingar um pouco da parafina no concreto para fixá-la. Acendo as outras sete velas usando a chama das que já estão acesas, colocando-as enfileiradas. Terminado esse ritual, recomeço a empurrar lentamente a cadeira de rodas.
— Aqui, filho, nesse, na Dona Josefa, ponha umas cinco, faça o favor. Enquanto me alcança outro pacote de vela, fala mais para ele que para mim. — Ah, Dona Josefa, a vida poderia ter sido diferente para nós…
Repito o ritual, após acesas as cinco velas, prosseguimos.
— Nesse, daqui, no Onofre, ponha umas seis,... Pacientemente, com toda a calma do mundo — afinal por que pressa em um cemitério? — acendo e fixo as quatro velas. Quando ia acender a quinta, ele fala.
— Uhn,..., só um pouco meu filho, tô lembrando de uma coisa. O Onofre, o Onofre, uhn,..., faz o seguinte..., espera um pouco, deixa eu ver, você já acendeu quatro? Me afasto um pouco para que meu pai possa ver as quatro velas acesas. — Faz um favor pra mim, apaga e tira uma. Deixa só três.
— Mas papai....
— ‘Mas papai’ o que? Não vê que temos só mais dois pacotes de velas e ainda tem o tumulo da Dorinha e da Dona Marilza, ali na frente. Além disso, me lembrei de umas que esse Onofre me aprontou. Canalha! Lazarento! Vai, deixa só três! To mandando!
Enquanto apago a quarta vela e a guardo no pacote, ele continua.
— De mais a mais, daqui uns tempos vou me encontrar com o Onofre e pode deixar que me entendo com ele. Lá em cima ou lá embaixo.
— Bem, o senhor que sabe.
— Sei sim. Sei sim. Você acha que 95 anos servem pra quê?




