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O azul dos necrotérios.

Anna F.

Conto candidato FICÇÕES VINTE

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De onde estou o sol faz claridade e só consigo ver se aperto os olhos, enquanto escuto um bzzzzzz dentro dos ouvidos. A palavra some na garganta e se não, ninguém a ouviria, porque estou num túnel: eles no claro e eu na escuridão. Alguém cobre o rosto. Posso sentir o vento. Vento quente daqueles de verão. Daqueles que não refrescam nada. Daqueles que ainda deixam o suor na testa. Ele pega minha mão e escuto sua voz como se entre eu e ele existisse um oceano de concreto: abafada, de outro mundo. Não entendo. Só a cabeça fritando no asfalto enquanto sinto o chão tremer, assim, de vez em quando, porque posso ser só essa cabeça agora, já que não sei onde está o resto do meu corpo, se comigo ou em outro lugar.

Depois fica tudo muito igual. De olhos fechados brinco de adivinhar: não estou mais no asfalto e tem um carro apitando distante, Acho que o dono deve estar com problemas no alarme, falo, e depois a maca, o oxigênio, o balé da ambulância, zunindo e cruzando pela faixa da direita. Abro os olhos só no hospital, que sempre me deu ansiedade. Ansiedade de doença e de morte à espreita. Não tem mais calor, mas o frio do ar-condicionado, o cheiro do álcool e do pó nas luvas de plástico e as luvas de plástico, não me fazem sentir melhor.

Mexo o braço que parece pesar uma tonelada. O médico está na porta, eu deixo de olhar o lençol e me viro pra ele que fala, fala, fala, mas o oceano ainda está lá. Faço um gesto e ele se aproxima rente ao meu ouvido. Agora sim, mas não respondo. Ele pergunta mais uma vez, olho para o teto e tento dizer que é um teto bonito para um hospital, mas ao invés digo, preferia olhar o azul dos necrotérios.