+
- 152 AuTossabOtagem
- 117 Grotas Gretadas sem Gotas Caídas
- 66 Não Prometa o que Pode Acontecer!
- 65 FELICIDADE EM UMA CAMA KING SIZE
- 59 Bertolucci
- 54 O azul dos necrotérios.
- 48 Tsurus
- 27 naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis
- 20 Cuidado, carneiros na pista!
- 13 Laurinha
- 12 Devolução
- 6 APARTAÇÃO
- 5 Ou Ritmo
- 4 O Chapéu
- 4 95 anos servem pra quê?
- 4 Era Ela.
- 4 Minha casa
- 4 Teresa em fuga
- 2 AMIZADE
Preencha os campos destacados.
AVISO
Os comentários abusivos serão eliminados. Notifique-nos: comente@revistaficcoes.com.br
Teresa em fuga
Cúmplice
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Tentei consertar Teresa colocando-a numa cidade atrasada, qualquer lugar do sertão nordestino lá da década de trinta: Contendas, Umbaíba. Saia de chita e muito deus-esteja. Mas continuava inverossímil. É ela a mulher que vai pegar a pistola do marido para matar o amante, no meio da bebedeira envolvendo seu nome: no barzinho ruim, mesa para quatro, um deles o amante, a história que rolava era a de suas posições na cama, seus gemidos, seus pedidos de mais um pouco, mais forte, ai meu canalhinha, meu canalhão.
O marido vai ao bar por uma dessas fatalidades mais reais que literárias e, voltando com o pacote de fósforos — Sobral não bebia: atentem no detalhe de sua dignidade! — voltando com o pacote de fósforos que fora comprar, àquela hora da noite, ele ouve no ar o grito: — CORNO!
Eis o trágico “fiat-lux”. Coisa que escapa, afinal. Sobral não olha para trás: desce a escadinha (havia uma) e sai à rua, meio bambo das pernas. Ele, o marido, um respeitável escrivão, vamos dizer, dessa cidadezinha. Um homem de emprego bom, se comparado à maioria — inclusive se comparado aos quatro sentados à mesa: caminhoneiro, criador de porcos, ajudante na farmácia, servente da prefeitura (escolham aí o amante). Pois é quase insuportável, esse Sobral. Quase insuportável, de tão bom.
Mas a realidade de Teresa, seu gesto extremo, precisa mesmo de tal contraste – essa altivez (ou covardia) de Sobral? Ou Teresa, mais mulher que tudo, dispensa qualquer moldura? E toda a sua especificidade não estaria só na decisão de apertar um gatilho, não contra si ou contra o marido, mas contra o amante, que alguma intuição talvez muito machista secretamente nos indique ter sido seu verdadeiro amor?
Tentei um cabo perolado para a pistola de Sobral, que Teresa vai pegar escondido; tentei uma briga entre ela e o amante, na véspera. Até a historieta do conhecimento dos dois eu tentei: algum detalhe cretino que garantisse, parágrafos depois, a impulsividade de Teresa. E os filhos, ah!, os filhos. Um casalzinho, assim simétrico aos pais em desespero. Sobral chorando baixinho no sofá da sala, humilhado mas sem gritos, gaguejando para Teresa o episódio do bar. Sem gritos, que os meninos já estavam dormindo: — Chego no bar e ouço um falatório, um sujeito bêbado, falando de mulher... Sabe que até ri? Eu, o idiota! E aí, quando vou descendo as escadas, ainda me gritam de lá, co-cor...
Aqui Teresa se dilui. Um momento como esse — e me chama para a velha brincadeira infantil, boca-de-forno: terá ido, fria, até o quarto dos meninos, antes de pegar a arma? Para dar, quente, o beijo vil na testa de cada um? Digo apenas que "marchou resoluta", foi buscar a pistola em alguma gaveta e "marchou resoluta". Sim, isso lhe cai bem. Depois, os quatro tiros. Hão de ser quatro, pois Teresa, suponho, nunca havia atirado antes. Mas já desisto de entender essa mulher: apenas ajudo Sobral a fugir com ela, assim sem muita conversa, para evitar o flagrante.




