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No dia do parto, o Credo
Aleks Costa
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Para Márcia T. que me deu o motivo.
Três paredes baixas arranjavam sala, quartos cortinados e cozinha. Papai andava do corredor estreito para a sala magra, onde a máquina de costura governava com autoridade os outros móveis. Mandou ficar do lado de fora com a tia louca que me carregou nos braços e me sentou no parapeito da varanda enquanto pegava um banco. Voltou e deixou-se ali comigo. Nesse dia aprendi uma nova oração.
Duas mulheres entraram. Panos brancos suspensos de uma bacia prateada e grande. Desconhecia tanta branquidão, embora soubesse que minha mãe era asseada, sempre tinha uma mancha descorada impregnando meu lençol. A doida me olhava atenta e preocupada. Quis descer, ela não deixou. Apertava e friccionava as mãos sem parar. Eu preso.
Papai veio perguntar de alguém à minha guarda que respondeu não balançando a cabeça. Ele voltou-se calcado para a galeria de cortinas floridas. Já era acostumado ao seu calar-pensativo; a inquietação daquele dia que era diferente.
As mulheres continuavam com mamãe. Pude ver umas delas saindo com o branco do lençol humanizado, vermelho como a língua da titia. Uma lamentação aguda me espantou, pulei e fui aparado por ela. Vamos fazer uma oração. Fico olhando sua boca mole. Medo. Era dada a ataques de fúria e brutalidade com os adultos que a insultavam rodeando o dedo indicador em volta da orelha. Sempre ouvi dizer de sua inteligência, aprendeu a ler sozinha e com a vovó aprendeu todas as rezas. Creio em Deus Pai Todo Poderoso, repeti. Ela parou e olhou para trás, de onde veio outro queixume. Continuei castigado por seus conhecimentos litúrgicos.
Pelas costas senti próximo um vulto negro, vestindo branco, giboso. Que foi Concebido pelo Poder do Espírito Santo, reproduzia. Era quem meu pai esperava. Nas mãos uma sacola de feira. A pele coberta de caroços me assustou no mesmo instante em que despertou curiosidade. A catequista mostra o caminho e grita “Dona Maria-caroço veio”. Meu pai recebe a velha de aparência detestável como quem tem pressa. Ela responde baixando os olhos e encolhendo os beiços. Estranhei que tão feia mulher pudesse tranquilizar meu pai.
Não tive sossego. Nasceu da Virgem Maria, foi Concebido pelo Poder do Espírito Santo, continuava. A dona-caroço agarrou o braço do meu pai e ele descortinou o quarto para ela entrar. Pude ver quando tirou da sacola uma tesoura maior que a minha da escola e muito brilhosa. Não podia descer dali e socorrer a minha mãe daquilo. Me desesperei repetindo Ressuscitou ao terceiro dia, foi Crucificado, Morto e Sepultado. O quarto gemia todo. Minha tia doida nada fazia, nem o pai. Queriam apenas que eu rezasse. O que eles iam deixar aquela mulher fazer? Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Repeti rápido e pensei que não queria ser julgado pelo que não fiz. Escapei das mãos grossas da tia e corri para o quarto. O pai não me barrou, veio comigo. Não tinha mais gritos, nem gemidos.
Puxei a cortina, segurado por meu pai e a escuridão pouco me deixou notar. Distingui primeiro a minha mãe cansada, coberta por um lençol sujo. Em seguida vi e ouvi a mulher bendizer com a “graça-de-nosso-senhor-Jesus-Cristo” aquela criança que chorou alto, agoniado. “É magrinho e cansado, nasceu triste”, profetizou. Procurei a tesoura, não vi, fui chamado para a voz da minha tia. Amém finalizava da varanda a sem juízo.




