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A festa da menina morta
Hannah Gamo
Conto candidato FICÇÕES VINTE
IMPRIMA. ENVIE. COMENTE.Não era acostumada a encarar os sentimentos e agora tinha que escrever de maneira crua. Tinha, não. Queria. Era essa a proposta. Não queria repetir as cenas prontas cheia de descrição que levam ao nada. Não estava a fim de escrever sobre comprar pão num dia chuvoso. Se estivesse escreveria:
O dia era cinza, um cinza amargo. Mesmo assim colocou a jaqueta antiga e puída que ganhara do avô. A jaqueta que lhe trazia alguma alegria e era preciso ânimo para descer as escadas e enfrentar a rua. O elevador antigo fazia barulhos estranhos e sempre ameaçava parar de repente. Claustrofóbico, ele evitava o risco. Preferia encarar a solidão das escadas a arriscar uma possível companhia naquele quadrado velho que carinhosamente apelidara de bate-e-volta. Enfim, preferia as escadas. Descia cada degrau imaginando as turras do dia: o chefe, a náusea, o trânsito. Mas, hoje era domingo. Vestia a jaqueta antiga dada pelo avô e já imaginava o cheiro do pão consolando suas dores. O milagroso cheiro do pão. Era domingo. Talvez, mesmo com a chuva, isso anunciasse alguma alegria.
Pronto, um parágrafo inteiro para comprar o pão. Estava fugindo. Isto não a levaria a nada. Onde estava o enfrentamento? A trama? Os personagens em conflito? Anos de redação e não matara ninguém no papel. O jornal era mesmo uma enganação. De nada lhe servira. Objetividade. Imparcialidade. Torpe a técnica que leva a firulas e a dissertações.
Jamais escreveria com um russo, um daqueles romancistas. Jamais poderia escrever como um deles sem uma pena, um tinteiro e um pouco sangue. Eles eram os senhores das tramas cheias de profundidade. Já ela não sabia fazer isso. Só sabia fazer o lide: Quem? Como? Onde? Por quê? Twittava. Frases rápidas cheias de sentido pretensamente universal. Escrevia e apagava. Ggftsssssdsdoj/[ççç[d´kiyu897j~çkopppo. Jamais a tecnologia lhe daria a chance de escrever tão definitivamente como quem escrevia no papel. Não esse papel bobo e reciclado. Mas o papel que não permite cortar as frases e refazer capítulos inteiros. Morreria de inanição sem o tanino para tal aventura. Era melhor conformar-se e escrever pequenos diálogos. Isso mesmo. Pequenos diálogos próprios da vida moderna:
- Ana?
- Oi, amor? (cena 1: ela se volta para ele na mesa de jantar)
- Você conseguiu ir ao banco? (ele pergunta molhando o pão no fundo do prato de sopa).
- Não, saí tarde do trabalho. Depois fui ao médico.
- Hum... Mas, tá tudo bem? (ele pergunta sem muito interesse – o foco da câmera agora é o vaso vermelho estilo oriental que está no console atrás da mesa).
- Tá. (ela responde baixando-se para apanhar a faca que caiu no chão. Ela pensa na dor do gozo e morde o lábio).
*Ele engole outro pedaço de pão e vê a mulher mordendo lábio. (a câmera com foco nele - ele pensa em como ela era gostosa quando se conheceram e pensa se vai conseguir pagar a conta pela internet).
* Ela sente a boca salivar e fala: - Encontrei a Dona Lúcia no consultório. Ela lembrou do seu pai, daquele cadilaque antigo... (ela fala lembrando do sogro e do médico que sempre a bulina durante a consulta.).
- Hum... E o que mais? (ele fala enquanto dá um gole na água – foco no copo d’água).
- E mais nada. Aquela conversa de sempre. (Ela pensa em como é bom fingir que não sabe que o médico a bulina durante o exame. Ela pensa no sogro e sente remorso – foco no rosto dela – Ela olha pro vaso vermelho estilo oriental que a sogra lhe deu e que ela acha horroroso – foco no vaso – Ela olha pro vaso e sente alívio no lugar de remorso).
- Nunca gostei daquela mulher. Vivia fofocando quando era nossa vizinha. (ele fala lembrando da cara de enjôo da ex-vizinha).
- Credo, Antônio! (ela fala fingindo compaixão e pensando nos dedos longos do médico).
- Credo, nada. Quando a gente namorava, ela ficava a espreita para ter o que falar depois. (ele fala lembrando das vezes em que namorava a mulher no antigo cadilaque).
- Você acha? (ela pergunta lembrando das vezes em que namorava o marido no antigo cadilaqui – de repente ela sentiu ternura pelo marido).
- Acho, não. Tenho certeza. (ele falou enxugando a marca da sopa no bigode.)
- Por quê? Na época ela falou alguma coisa? (ela perguntou mirando o marido enxugando o bigode e pensando que aquilo era nojento)
- Lembra daquela vez que a gente vinha do jogo e você saiu do carro toda molhada vestindo minha camisa? Pois então, na época ela falou horrores. (ele falou lembrando do jogo – São Paulo 3 e Palmeiras 1)
Uma lauda de diálogo e mais uma vez ela ficou perdida. Quis mostrar o desencontro e ficou sem rastro. Afinal, aquilo era um conto? Mas, e as referências de câmera? Talvez desse um bom um roteiro. Talvez não desse nada. No máximo uma conversa que lembrava as pornochancadas dos anos 80. O Nuno Leal Maia poderia fazer o marido e a Nicole Puzzi seria a esposa. Enfim, já não era tão moderno assim. Abordar o descompasso entre a fala e o pensamento parecia tão antigo quanto reinventar a roda. E a questão de gênero? Tão simples e batida que tinha mofo. Era isso: tudo estava embolorado. Tudo era verde-musgo da cor que vestia o quintal da sua infância. Aquele era um tempo bom porque quando era menina não queria analisar as coisas, não queria escrever. Seu sonho era ser médica. Uma maleta, a imaginação e só.
Agora imaginar era sentir dor. Era expor as entranhas com nome de outros, mas com sentimentos tão seus. Poderia até criar personagens inominados. Isso mesmo! Seriam como os cegos de Saramago. Poderiam ser... Pena que não demoraria muito para ela perceber que isto não adiantava. Não lhe era de grande serventia colocar o verbo no subjuntivo. Ela simplesmente não “estaria”, porque ao fazê-lo já estava escamoteando sua idéia de ser, seu desejo de enfrentamento.
Pensou, então, em falar das coisas ásperas. Aliás, a mais dura de todas as ações: a morte. A morte que escrita assim não é verbo e não é ação, mas é o próprio substantivo intransponível. Ninguém até hoje conseguiu enganá-lo.
A mulher quis cobrir-lhe o rosto. Quis esconder os olhos esbranquiçados da criança morta. Era uma menina. Não deveria ter mais de 9 anos. Tão pouco e já sem vida. Estava ali na calçada. Com o corpo ainda quente era de se imaginar que morrera ali, ainda há pouco. Num eclipse ao avesso, talvez tivesse partido enquanto o dia nascia. Agora era só o corpo estendido na esquina do bar. A mulher ia lavar a calçada e servir os primeiros pingados quando viu a menina morta. Ergueu o portão de ferro e lá estava o susto e o corpo. Ao lado só um colchão rasgado e alguns molambos. Nem mais um mendigo dos tantos que costumavam dormir na porta do bar. Nenhum dos que se abrigavam da chuva e lhe pediam pão e cachaça. Nenhum cachimbo de crack. Nenhum brinquedo velho. Só a menina e os olhos cerrados.
Era isso. Uma frase simples que dizia tudo: a menina e os olhos. Mas, de alguma maneira estava enganada. Não era a morte, era o abandono. Rodou, rodou e caiu noutro erro.
Não importava mais o personagem. Não tinha mais as palavras. Ela só não podia abandonar a si própria.




