Stravinski Ski

Billie Jones


O metrô, a multidão, os movimentos desarticulados da cidade e todo o mesmo tempo pra todo mundo o mesmo tempo do mundo. O resto lento. Longe da superfície tem o espaço e o tempo é contado em anos. O eterno é não se importar com os segundos, como deixamos no caixa os dois centavos de troco do sabão em pó que não compram nada. Mas o eterno é longe daqui e de lá se vê as muralhas chinesas, os cometas e a composição abstrata em azul e cinza que é a Terra: abstração 1, sem data.

Sob o azul as pilhas acabam, a música é interrompida e o trânsito para. O leite derrama no fogão, a torneira da pia do banheiro afrouxa, a chave do cadeado da janela some, o café escorre sobre o tapete branco que estupidamente fica embaixo da mesa da sala. O amor termina, os filhos nascem, os livros são divididos. A música não vem, a poesia não é construída, as tintas ressecam sem arte no prato. Sob o azul a vida parece tempo linear, vetores, aula de Física. As incógnitas têm solução, há respostas para todos os problemas: ver gabarito na página 360. Os guarda-chuvas parecem bonitos aqui de cima. A garoa tem um tanto de cinematográfico.

Sob o azul, Francesco conheceu Mariana, fez um filho com ela, o amor começou, o amor acabou, o bebê nasceu (Alice não teve nem um minuto para pensar antes de cair onde possivelmente seria bastante profundo). Arranjou um trabalho, desistiu do inglês, vendeu a guitarra, parou de beber e não lê os jornais como antes. Sob o azul específico de hoje (é sempre o mesmo azul da água do rio?) seguiria o itinerário de sempre. O mesmo caminho dentro do cenário ambulante lento metálico. O mesmo bordado colorido no tecido de retalhos motorizados. O mesmo trabalho da mesma vida hoje desperta.

Se lembra da música de antes, do seu pai preparando o leite da manhã, a janela da cozinha borrada do quente de dentro, o sol fraco com gosto de domingo, os desenhos da tevê, a mãe ainda dormindo, do prazer de estar protegido e sozinho na sala, do sofá enorme, do pijama de algodão com foguetes e das meias de lã. O frio confortável, o sono permitido. O sol se erguendo lento, os dedos gelados do suor frio da janela de inverno. A poesia inconsciente feita instantânea sumindo quando sumia o frio, apagado pela luz suave de fora. O que esperaria naquela época? O amor era o leite quente, a mãe enrolada nos cobertores, o pai voltando da banca com o jornal, as palavras cruzadas e o almanaque da Disney.

Se lembra dos livros da adolescência, dos planos para as viagens beatnik de bicicleta que planejava com João, por quem se apaixonou e sofreu por dois dias até entender que existiam muitos amores diferentes na vida. Do depois da escola, jogar futebol na rua, explorar umas construções abandonadas, da tatuagem aos 14 anos.

Se lembra da Renata sentada no seu lado na festa do colégio, as pernas lindas e absolutamente macias de se ver, do conforto de estar ali do lado, da ansiedade e da angústia de estar ali naquela cadeira, do Purple rain, do beijo assustado. Do primeiro copo de uísque, do corte na testa depois de bater com a cara na pia do banheiro, dos banhos sempre acompanhados de um amor vazio por mulheres altas da televisão.

Se lembra das aulas de guitarra, dos planos de tocar no Maracanã que nem o Queen, da vontade de construir uma máquina do tempo e beber com os caras do The Doors, de tomar ácido sem camiseta, de transar com quatro mulheres. Ah, os anos 60!

Se lembra de Mariana, doce, no balcão da farmácia, perguntando mais alguma coisa senhor, sim, seu telefone, vermelha de vergonha, o encontro no café da frente, as conversas sobre o I Ching, sobre o nome dos doces, sobre Marinetti, sobre os Beatles, sobre tem um show lindo hoje, ela disse, quer ir?

Se lembra do show, o amor nascendo, das cervejas, ela dançando tão ali mergulhada na música, dos tênis na porta, das cadeiras, do sofá, do coração dela descontrolado como seus braços descontrolados, como os beijos descontrolados, quase com raiva, quase agressiva aquela vontade da cama. Era o mesmo sol da infância despertando o casal provisório atrás da janela gelada.

Se lembra da Valentina entrando enquanto Alice saía de Mariana. Se lembra do amor deslocado, o casamento acabando, a impaciência. Mariana chorando do outro lado, ela devia estar chorando.

O amor amornado pelo sol suave de inverno.

Se lembra da vida de antes e fura o sinal vermelho. Os símbolos imperceptíveis da cidade eram para ele uma espécie de liberdade luminosa, a liberdade dos loucos que conversam sozinhos por não terem ninguém suficientemente menos egoísta em um raio de menos de cem metros.

Francesco pouco vivo voa ligeiro por sobre os carros. Um silêncio abafado do susto diminui a marcha dos homens condicionados à ligeireza da cidade. Se veem mortais, como ele. A mesma reflexão sagrada que permitiu a invenção dos funerais pré-históricos. E se o menino morre?, muito sangue naquele cinza opaco de terça à tarde. Documentos, liga lá, esse deve ser de algum conhecido, o telefone está desligado, porra, pra que celular se não serve numa hora dessas, vamos, liga lá pra ambulância, meu deus quanto sangue. Uma nuvem de motoqueiros parados ao redor de Francesco. Cabeça baixa e capacete na mão, peões diante de Nossa Senhora que proteja nosso menino. Reverência. Afasta, afasta, deixa o cara respirar, não se mexe, isso, afastem. Uma nuvem de zumbis com fome de violência olhando com ar de sossego, ainda bem, não é nenhum conhecido. Vamos lá, um, dois, três, isso prende o pescoço, ele está respirando, doutor? Nenhum sinal até agora, vamos de novo, um, dois, três, tentamos o desfibrilador? Que potência esse coração suporta? Contato com a família? Positivo, senhor. Sinais de hemorragia interna, doutor. Grave.

UTI.

O céu reflete o cinza dos homens de pedra cal e areia. Areia sem sal, sem praia, areia artificial, como a vida de plástico da cidade parada. A melodia infrassônica dos automóveis que não se movem e o calor confortável vindo dos escapamentos. Presos nessa vida sem silêncio, contatos intermediados por máquinas. Que nunca funcionam, que não comportam a vida inteira, mas ocupam grande parte dela. Máquinas que cabem no bolso, dissipam o desespero, paraísos particulares, com chips de identificação. Telefones sem notícias. Trânsito lento em direção à zona leste. Tente o desvio.

Trânsito parado. Paradoxo. Uma obstrução na artéria, grave. A senhora é parente do Francesco? Pode assinar essa guia azul, por gentileza. A UTI fica no final do corredor à direita. Tudo cheirando a éter e nem é carnaval. Grave. O barulho ritmado daqueles monitores, Francesco ligado na tomada.

Ouça, Francesco, é aquela nossa música, lembra? Filho, te trouxe um cobertor mais confortável, lembra, ele se enrolava nesse trapo de manhã cedo no domingo. Meu nome é João, procuro pelo paciente Francesco. Desculpe, mas os senhores devem se retirar da UTI agora. Ele não consegue falar, mas ouve. Ouve tudo, doutor? Ele não consegue falar, mas ouve. Qualquer coisa? Sim, qualquer coisa. Frank, fiz essa música para você, sente? Eu também achei que te amava naquela época, sabe. Francesco, a Alice fez esse desenho para você. Tenho certeza que seu pai está falando com Deus para te dar mais tempo, filho, por favor continue aqui, por favor continue comigo, você não me deixaria sozinha.

Juro, ele esboçou um sorriso e a máquina parou.

O trânsito da capital flui bem nessa manhã de sábado. Previsão de tempo bom para o feriado.
 

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